A espetacularização do criador…
Francis Ford Coppola, unanimemente reconhecido como um dos maiores diretores do cinema moderno, esteve em Curitiba no último 31 de outubro de 2024. Entre espetáculos midiáticos e festivais em sua homenagem, a personalidade teimosa do cineasta que nos trouxe o magnum opus do cinema moderno, O Poderoso Chefão I e II, destacou-se acima de tudo. A vinda dessa lenda do cinema ao Brasil, para lançar seu projeto megalomaníaco e autossustentado de 120 milhões de dólares, Megalópolis, marca a história recente da pequena Curitiba, que se deslumbra com a aura de uma estrela internacional.
Coppola atrasou-se para sua primeira agenda em Curitiba, uma masterclass no Guaírão na manhã do Dia das Bruxas. Saindo do Hotel Bourbon, ele pediu ao motorista que parasse para observar uma estação-tubo – ponto de ônibus curitibano, que ele conheceu em 2003, em sua primeira visita à cidade. O diretor entrou na estação Círculo Militar, fotógrafos do Governo do Estado registraram a cena: uma estrela do cinema mundial contemplando algo tão banal. Entre os cliques, a foto de Anderson Tozato foi a mais compartilhada, rodou o mundo, mas recebeu pouco crédito.
Ao chegar ao Teatro Guaíra, Coppola foi cercado por uma manada de assessores, fotógrafos e autoridades. Suas próprias assessoras mostravam sinais de irritação com o volume de pessoas. O que todos queriam era estar ali, como se a presença de uma lenda fosse capaz de elevar a autoestima coletiva, como se estar perto da sua aura criadora fosse nos tornar um pouco mais importantes. Eu estava lá, cobrindo a chegada com uma filmadora portátil. Entre empurrões e cotoveladas dos outros fotógrafos, consegui alguns bons takes do diretor até ser bloqueado pela produção, composta por duas mulheres – pequenas, porém firmes.

No palco do teatro, o diretor seria apresentado com pompa e honraria, até uma premiação lhe foi separada, mas ele recusou, “estava ali para falar com os estudantes”. Era um sentimento ruim para a produção do evento, fantástico para o público. O diretor, sem avisar, abriu espaço para perguntas, a desgosto da produção – que mantinha uma agenda cheia para Francis naquele dia. Mas o apontamento com o governador, cerimônia de honra do Governo do Estado, eram pouco importantes para ele, que queria livre diálogo com os jovens mesmerizados por sua presença. Mas Coppola foi puxado dali, pois sua presença era nobre demais para o público, e ele seria demandado para receber horarias e no Palácio do Iguaçu.
Ele não me pareceu gostar de cerimônia, mas no Palácio, Coppola entrou no clima. Foi condecorado com a maior distinção do Estado do Paraná, recebeu de braços abertos, cumprindo com as tradições do sistema. Mais tarde ele visitou o Instituto Jaime Lerner, por quem tem admiração, e o Cine Passeio, antes de ir embora da capital para outros voos no contexto de lançamento de seu filme. Na mídia tradicional, sua breve visita a Curitiba se resumiu ao seu ato inusitado e banal de entrar numa estação de ônibus, e às meias-verdades de que seu filme “Megalópoles” teria sido inspirado na cidade de Curitiba.No fim de tudo, o dia 31 de outubro de 2024 ficará marcado na história de Curitiba. Tenho certeza de que um dia contarei aos meus netos, se vier a tê-los, que estive na mesma sala que o criador de O Poderoso Chefão.