A exposição “Paisagens Distópicas” leva surrealismo apocalíptico à casa noturna de Curitiba

O conceito de museu tem evoluído ao longo da história. O que começou como simples gabinetes de curiosidades, onde tudo o que era considerado estranho ou estrangeiro era exposto, sem método, pesquisa ou discussões éticas, evoluiu com o tempo para salões de arte. Nesses salões, uma elite se aglomerava em grandes salas repletas de quadros e esculturas de artistas contemporâneos a eles, expostos de forma desordenada, sem expografia, ocupando todos os espaços possíveis com obras que poderiam gerar lucro. Esses espaços, com o tempo, se tornaram os museus que conhecemos hoje, locais de pesquisa, reflexão, que salvaguardam a nossa história e promovem o desenvolvimento de novas práticas artísticas.

Mais recentemente, os museus, por muito tempo fixados em seus limites prediais, começaram a ousar sair de suas próprias paredes. O Guggenheim de Nova York se expandiu para Bilbao, no País Basco. O Centre Pompidou de Paris abrirá uma filial em Foz do Iguaçu. No entanto, essas são grandes expansões, megalomaníacas. Em menor escala, aqui em Curitiba, o Museu Oscar Niemeyer decorou o Parcão com obras interativas ao ar livre. E pensar que um espaço tão clássico como o Museu Alfredo Andersen (MCAA) formaria pintores que exibem suas obras, de todos os lugares, em um bar. No entanto isso não foge à persona que dá nome à essa instituição – Andersen, clássico pintor norueguês radicado em Curitiba e tutor de nomes como Theodoro De Bona, era um tipo de sujeito muito ligado à boêmia. Naquele tempo, início do século XX, o “pai da pintura paranaense” frequentava reuniões e confrarias com outros intelectuais e artistas da época, o que possivelmente incluía bares e cafés.

A exposição coletiva “Paisagens Distópicas” reúne trabalhos de 32 alunos de pintura da Academia Alfredo Andersen, escola anexa ao MCAA, orientados pelo pintor curitibano Lavalle. As obras, conceitualmente, evocam o surrealismo e o dadaísmo, utilizando tinta acrílica, óleo e técnica mista sobre tela. A mostra está em exibição no espaço cultural Carbono Cult, uma casa noturna no Bigorrilho, em Curitiba, até o dia 25 de novembro.

As obras retratam paisagens que, embora reconhecíveis, foram brutalmente transformadas pela depredação e pela intervenção humana, criando representações viscerais de uma natureza alterada. Um exemplo é a obra “Caos”, de Regina Oleski, que emprega cores naturais em contextos inusitados: o verde para a água, o marrom para os peixes e o azul para corpos humanos pálidos. Trata-se de um estudo sobre um futuro que a artista alerta.

O grotesco, o insólito e o diatópico aparecem na obra “Império Ímpio”, de Bianca Adamczeski, que representa o desespero de uma humanidade sob o efeito de poucos homens de grande poder. A obra evoca personagens do nosso folclore mais primordial, como o bicho-papão, quase como uma representação das figuras autoritárias modernas.

“Paisagens Distópicas” homenageia o legado do Movimento Surrealista, que em 2024 completa seu centenário, e provoca uma reflexão sobre os desafios ambientais contemporâneos. No entanto, há uma grande variação entre as obras: algumas tentam se aproximar de um surrealismo antiquado, outras têm um uso de cores pouco inspirado ou iconografias convencionais. A expografia também carece de um conceito unificado; as obras estão dispersas pela casa noturna, dificultando a identificação de uma narrativa ou percurso expositivo. No entanto, essa falta de estrutura não interfere no efeito geral, já que a estética das obras combina com as paredes manchadas, cores e tom caótico proposital da decoração do Carbono Cult.

Ao fim, a mostra continua o legado irreverente da pintura como técnica. Assim como os museus evoluíram de gabinetes de curiosidades para templos de reflexão, a exposição dos alunos da Academia Alfredo Andersen desce do pedestal institucional classudo e invade o caos organizado do Carbono Cult. Ao ocupar uma casa noturna, esses artistas reafirmam que a arte não precisa de salas impecáveis para existir. Muito pelo contrário, ela vive, respira e se rebela nas paredes manchadas e rabiscadas dos bares de Curitiba.

Serviço:
“Paisagens Distópicas”
Local: Carbono Cult – Curitiba, PR
Horário: de sexta à domingo
Entrada gratuita

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